quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Queda lancinante

Um dia derreti minha voz na queda lancinante de um abismo invisível
Como fui tolo por gritar entre árvores imaginárias!
Então, num desespero alagado de resignação
Sorvi meus sonhos num indulto derradeiro
Por fim, como se não bastasse
Abrindo a tempestade de espinhos
Dancei no instante exato em que a música parou 
 
(Vinicius Maganha - São Paulo - Novembro de 2018) 
 
 

Alicerces da escuridão

Um abismo me observa à distância 
como se evocasse a utopia desvairada dos andaimes celestes
Vibrando na freqüência dos tambores que anunciam
um animal xamânico que volta e meia se disfarça de realidade

Como um pêndulo alucinado
Busco a dimensão carnal da poesia
Entre becos e vielas de uma metrópole clandestina e noturna 

Pavimentos se dissolvem na loucura
Engrenagens dissipam sonhos nos alicerces da escuridão
Trilhos se entrelaçam por entre túneis espiralados 
E o poema nasce no fim do arcos íris de concreto
Como mero substrato de boemia 
Como resto de orgia e de cachaça

(Vinicius Maganha - São Paulo - novembro de 2018)  
 
 

Sou não mais que o futuro

Sou não mais que o futuro
Condeno o presente e o passado
Pois a solidez é o que será, e não o que já temos
E o momento exato tange a noite celeste

O instante inerte sorve o sonho distante
E o que há de certo no mundo deságua
Se desprende em pensamentos torpes
Tragicamente indecifráveis
Como todo poeta (não importa)
Como todo projeto de ser real
De viver o todo

(Vinicius Maganha - novembro 2018) 
 
  
 
 

Poesia viva nos bares noturnos

Ruas, grades, pixos,  postes
A poesia viva nos bares noturnos
A cidade pulsa num abismo infinito
Poetas mergulham dos precipícios
Palavras arrancam sentidos dos muros
Um tunel lateja em meio ao caos
Becos incautos engolem a madrugada

Bêbados sedentos
Gente que delira
Ecos devastados

A lua embriagada corta o medo de voar
Aprendi a levitar fora do corpo
e ver a alma entorpecida de fumaça escura
se afogando em águas rasas
Como é bom estar no ar por entre nuvens que destroem pensamentos
E depois de tudo caminhar indiferente 
 
(Vinicius Maganha - São Paulo - Outubro de 2018) 
 
 

Dilúvio permanente

Quero para mim o instante entre o relâmpago e o trovão
Um querer egóico mergulhado num continente psíquico

Quero uma alma dissonante pra vestir de carne e sangue
Pois meu corpo líquido evapora em melodia áspera
Numa diáspora de sentimentos ambíguos

Quero um copo de tormenta pra beber em um só gole 
Num dilúvio permanente escorrendo na garganta

Desejo de modo final
Renascer como montanha estilhaçando o firmamento 
Na delicadeza do alvorecer 

(Vinicius Maganha - São Paulo - novembro de 2018)
 
 

Limiar do medo

Quando a voz tem cor de sangue
E a poesia se transforma em carne
cujo odor indubitavelmente espesso se confunde
com a lua cheia
A única serpente que rasteja
se atreve a voar por entre palavras e ruídos

No limiar do medo
No entreato musical
Nos poliedros da virtude
Na liberdade cognitiva de um verso náufrago
Girassóis em chamas miram a primavera num delírio de vertigem

E assim descobrimos a verdade no espelho:
Somos trovão e fogo
Vento e lodo
Cais e chuva
Somos meses de tormenta
Céu e ribanceira 
Óleo sobre tela
Somos deserto e lâminas de chumbo
Somos o eco dos mananciais 
 
(Vinicius Maganha - São Paulo - outubro de 2018) 
 
 


O instante e a náusea

Quadros monocromáticos intensificam minha náusea
Perante esculturas de mármore de arquitetura gótica

Proporção áurea, arcanos maiores e guerrilha cultural
escorrem entre fontes e trovões
Transbordam entre nuvens de fumaça cinza
E dilatam-se entre versos e praças

Pianos e avenidas, 
Bairros distantes, 
Cenas tiradas da boca do lixo
Drogas, vexames, brigas, luto
Ventos, turbilhão, cansaço e gira de samba
Me lembram que sou odiado pela contemplação
Me dizem que sou cego pela hierarquia do verbo
Que sou dócil nos umbrais do subúrbio
Que sou asas em vez de luar
Que evoco o sonho do sociopata
Que brindo a noite no amanhecer
E sinto a calma das mentes vazias
A rima das noites sinceras
A dança e o grito das cores
As coisas mais desesperadas
As flores a beira da estrada
Na beira do Abismo
As torres
As foices
As bocas

(Vinicius Maganha - São Paulo - novembro de 2018) 
 
 

Queda lancinante

Um dia derreti minha voz na queda lancinante de um abismo invisível Como fui tolo por gritar entre árvores imaginárias! Então, num desespero...